Imagina que estás na praia. Estendes a tua toalha, e deitas-te nela. Sentes a leve brisa do mar no teu rosto, sentes o calor do sol no teu corpo, e ouves o suave ronronar do mar. Sentes-te confortável, calmo, relaxado. Sentes-te bem.
Agora, imagina que, de repente, uma nuvem escura tapa o sol, e a brisa torna-se num vento frio. Não só isso mas por detrás de ti começas a ouvir barulho de máquinas, pois os homens da câmara voltaram agora do almoço, e estão a reparar o parque de estacionamento. A verdade é que já não te sentes nem confortável, nem calmo, nem relaxado.
O ambiente à nossa volta influencia muito a forma como nos sentimos e agimos. Algumas mudanças notam-se imediatamente, outras são tão graduais que a princípio nem reparamos. Outras coisas são assim há tanto tempo, que já nem notamos o efeito que nos causa (Como saberíamos que temos frio se nunca tivéssemos sentido o calor?).

Muita coisa pode ser escrita sobre estas verdades, mas hoje gostava de falar sobre a influência da a arquitectura do edifício a que chamamos igreja (na realidade, como sabem, a igreja é a comunidade dos cristãos, e não um edifício). Mas antes de o fazer, gostava de vincar que estou a falara de influências, e não de obrigações. Da mesma como a nuvem, o vento, e o barulho das máquinas não nos obrigam a sair da praia, mas ajudam bastante a que isso aconteça. Cá estão algumas das influências:
1- Falta de relacionamentos
Assim que chegamos à "igreja", somos imediatamente encaminhados para um lugar, onde nos sentamos. Daí, apenas conseguimos ver as nucas das pessoas à nossa frente, e mais à frente o palco, e se virarmos a cabeça, apenas vemos a pessoa à nossa esquerda e direita, com as quais podemos conversar, mas discretamente. A própria disposição da sala convida a uma comunicação do palco para "o povo", e não uma comunicação entre todos. Quando a reunião acaba, se realmente queremos relacionar-nos com as pessoas, teremos de sair do edifício, onde há espaço.
2- Hierarquia
A separação entre as pessoas que estão nas cadeiras (o povo) e as que estão no palco (o clero), ajuda a criar uma imagem de hierarquia, em que uns são superiores aos outros. No entanto, a Bíblia mostra claramente (1 Pedro 2:9, Mateus 20:25-28) que todos nós somos sacerdotes, que todos nós estamos ao mesmo nível. Ser líder, na igreja, não é um cargo hierárquico, mas uma função.
3- Passividade
Da mesma forma, a separação entre duas classes de cristãos ajuda à passividade. Ajuda a que aqueles que estão nas cadeiras não participem na reunião. O próprio formato da sala não ajuda a que todos participem, com profecias, com ensino, com exortações, com perguntas. Os cristãos tornam-se assim meros receptores do ministério de uns poucos escolhidos.
4- Restrinção à liberdade do Espírito Santo
Por fim, e pior do que tudo o resto, restringe a liberdade do Espírito Santo. Toda a reunião é conduzida por um homem (o pastor, o padre, etc.), e apenas ele e as pessoas no palco têm total (?) liberdade de ministrar aos outros. Se o Espírito Santo quiser manifestar-se numa reunião, será muito mais fácil fazê-lo através dessas pessoas "mais importantes".
Em suma, os edifícios que temos hoje não ajudam a vida da igreja. Pelo contrário, ajudam a atrofiar a vida da igreja. Se queremos inverter essa situação, é melhor retirarmos a nuvem e o barulho das obras. Fica mais fácil assim.